terça-feira, 18 de maio de 2010

O Recheio do Sanduíche

Quando eu era mais jovem não pensava em ter filhos! Nunca achei que tivesse vocação para ser mãe. Dedicação em tempo integral, amor incondicional.Vi muitas mães serem hostilizadas por seus filhos e me perguntava:“Será mesmo que vale a pena esse sacrifício?”. Era uma época em que o meu mundo era apenas “eu”!
Graças a Deus esse tempo passou e com ele todo o meu egoísmo! Adquiri a vontade de tê-los. Não sei se desenvolvi a habilidade para exercer esse papel que, na minha visão, é o mais difícil e de maior responsabilidade da vida do ser humano. OK, eu pensava em ter apenas dois filhos (padrão nacional... rs) e aí Deus me deu dois... Casais!
Carol (hoje com 15 anos – mora com o pai) nasceu de meu primeiro casamento. Meu atual marido queria muito ter um filho – menino – e quando engravidei, prometi a mim mesma que sendo menino, seria o último. Nasceu o Victor. Menino lindo! Meu médico recusou-se a fazer a “laqueadura”, pois, segundo a sua experiência, sabia que o meu marido iria querer ter outro filho (afinal para o meu marido era o primeiro!). Não tardou muito para que a profecia tornasse realidade. Ele logo quis outro filho (quem cria um, já cria dois, não é?). Hummm... OK. Naturalmente ele queria ter uma menina para completar o quadro (dele). Engravidei e nasceu outro menino, Gustavo! Menino impaciente
que não quis esperar a cesariana e nasceu no dia 11 de Setembro! Data que tentei evitar porque as lembranças para o mundo não são boas, mas para mim, tornou-se uma data de bênção! O meu marido sossegou? Claro que não! A vontade de ter a menina ainda continuava. Por mais que eu tenha tomado todos os cuidados imagináveis, engravidei novamente!
Lembro que quando estava grávida da Camila (nossa caçula), um conhecido perguntou-me como eram os meus filhos. Comecei a contar sobre as características de cada um.
Carol, menina meiga e doce. Todos queriam uma filha como ela! Victor, companheiro e caseiro. Não tinha quem não notasse a sua beleza! Gustavo, sempre investigativo e observador. Todo mundo dizia que era uma criança inteligente. E eu aguardava para saber como seria a Camila... Esse senhor, quando falei do Gustavo, deu risada e disse: “Xiii, o recheio do sanduíche!”. Olhei para ele achando curioso o comentário. “Você não sabe o que significa?” perguntou. Então, ele explicou: “Na minha família costumamos chamar o filho “do meio” de recheio do sanduíche. Ele é o sabor, a diferença, o tempero; mas normalmente, não tem consciência disso! Sempre quer estar nas pontas. Cresce vendo o primogênito ser coroado por ser o primeiro! Depois tem que lidar com o caçula porque é o menor. E fica perguntando a si mesmo, onde ele entra? Qual o grau de importância que ele tem no quadro de filhos?” Apesar da Carol ter sido a primeira filha, ele falava da minha situação recente, dos irmãos do mesmo pai. Achei engraçado o comentário e defendi minhas crias (como qualquer mãe faria), alegando que não havia preferências e que todos são iguais!
Depois que a Camila nasceu, começamos a perceber que o Recheio do Sanduíche, por mais que déssemos o mesmo amor, tratamento e carinho, sempre procurava uma posição diferente. O problema estava no modo como ele se enxergava diante dos irmãos: o Victor, na ausência do papai, é o chefe (rs)! A Camila é o bebê da mamãe! Camila é a filhinha do papai! Victor é o querido da mamãe! Sempre dissemos: “Não, Gú! Você e o Victor são os nossos meninos! A Carol e a Camila as meninas! São todos filhos e amados do mesmo modo!” Mas ele nunca se deu por satisfeito com essas respostas. Não cismei com isso porque para mim são todos meus filhos, oras! São todos iguais!
Dia desses, eis que o Recheio do Sanduíche me surpreendeu. Não como eu gostaria...
Administrar três filhos, relativamente pequenos, não é fácil! Nem todos os dias somos a mãe perfeita. Aliás, tem dias que pareço mais bruxa do que mãe! Nesse dia eu estava exausta! Queria as coisas no lugar, arrumadas, não queria brigas entre eles, queria um pouco de silêncio. Depois de tanto chamar a atenção, brigar, impor ordens; resolvi que “a última arte” , merecia uma punição mais severa! Tirei do quarto deles as camas, os colchões, brinquedos... Deixei apenas o guarda roupas (porque é pesado para tirar... rs). Tudo nos meus planos estava dando certo, até que escutei: “Victor, você acha que se eu morrer e for para o céu, a mamãe vai sentir a minha falta?”. Gú e Camila no banco   Não consigo, por mais que eu tente, encontrar um palavra que consiga resumir a dor que senti dentro de mim. Minhas pernas enfraqueceram e as lágrimas começam a cair dos meus olhos como se eu nunca tivesse chorado em minha vida! Não eram de tristeza! Eram de desespero, de raiva de mim, de medo... Como ele podia pensar uma coisa dessas? Onde eu estava errando? Eu “puni” os três e não apenas ele! Por que o meu pequeno homem falava uma coisa assim? Tudo o que fiz, na mesma hora, foi correr até o quarto e abraçá-lo bem forte e dizer que se qualquer coisa acontecesse a ele eu iria sofrer muito porque ele é um pedaço de mim, o amor da minha vida! Expliquei, aos soluços, que somos uma família e que para ela estar completa e feliz, precisa de todos: Eu, o papai, a Carol (que não mora conosco), a Camila, o Victor e ele, claro! Nada faz sentido sem a presença dele. Tudo o que construímos foi com a união de todos. Ele balançava a cabecinha indicando que entendia, mas eu precisava ter certeza que tudo o que eu dizia estava entrando dentro dele, do seu coraçãozinho. Não sei por quanto tempo ficamos ali abraçados. Lembro que logo se juntaram a nós o Victor e a Camila e num grande abraço coletivo, choramos os quatro. Camila nem sabia (será?) por que estávamos ali chorando, mas a corrente de emoções era tão forte que não tinha como não ser envolvido nela.
Depois de refeita (demorou muito... até hoje dói), fiz o inevitável mergulho interior. Revi todos os detalhes (pelo menos os que eu conseguia enxergar), revivi todas as passagens de nossas vidas e cheguei à conclusão que, inconscientemente, eu não estava dando espaço para o Gustavo ser o sabor do nosso sanduíche. Estava tratando-o como pão, como os outros. E talvez esse tenha sido o meu erro. Realmente ele buscava uma definição ou explicação para o seu papel em minha vida. Qual o sabor que esse recheio tinha nela?
Não é fácil separar as coisas e eu mesma acabei me esquecendo de tratá-lo como indivíduo. Não basta simplesmente colocar quatro filhos na balança e dar a eles o mesmo peso... a mesma medida. São diferentes! Eu esqueci de que a característica dele é a de investigar e observar. Desde então, tomo o cuidado de notar as diferenças, de cuidar das minhas palavras para que elas não sejam interpretadas genericamente. Cuido para que a mensagem chegue a cada um, respeitando os sentimentos e compreensão individual deles. Não é fácil, ainda aprendo com eles! Não tenho o manual de instrução. Tudo o que me resta é apenas a intuição e o coração de mãe que também erra. Mas esse erro, além da lição, me permitiu entender o verdadeiro sabor do Recheio do meu Sanduíche. Mesmo tendo temperado com o sal das lágrimas, entendi que o meu recheio é delicioso e precisa saber de sua importância. Todos os filhos são especiais, cada um com o seu sabor próprio. Aprendi com isso e espero que eu consiga ensinar a eles mais sobre a vida e os seus sabores! Continuo achando que educar os filhos é uma tarefa difícil, mas é uma aula constante sobre sentimentos, onde o amor por mais sincero e óbvio que seja, precisa ser explicado, demonstrado e tratado com respeito, porque as crianças entendem tudo e nós, muitas vezes, aprendemos com elas!
Jackie Freitas


"A melhor maneira de ter bons filhos é fazê-los felizes."
(Oscar Wilde)


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